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Publicado em: 11/10/2016

Mulheres de Luta 1

História de mulheres batalhadoras. Outubro Rosa.

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É com muita satisfação que iniciamos a partir de hoje a compartilhar com vocês, algumas das histórias de mulheres guerreiras, batalhadoras, que apesar das dificuldades levantaram a cabeça e seguiram em frente. Mulheres que se desafiaram e que desafiaram a sociedade. Por que não?. Em breve lançaremos a cartilha com a história de 34 mulheres associadas às cooperativas do Sistema Cresol Central que são exemplos de superação. Mas antes de você conferir o trabalho final, vamos apresentar algumas dessas histórias. Começamos com a da Deumira, da Cresol Seara, que é um exemplo de persistência e que não tem medo de desafios.

Deumira Tedesco Battistella
Cresol Seara

Não é um desafio que faz Deumira Tedesco Battistella, 47 anos, associada da Cresol Seara, desistir do que deseja. Desde cedo encarou os desafios e foi em busca do que queria. Ela conta que estudou até a 8ª série e depois a mãe não a deixou mais estudar porque o segundo grau era só à noite e a mãe não aceitava o fato de ser moça e estudar à noite. Com 19 anos, desafiou o pai e foi fazer o segundo grau.  “Mesmo contra a vontade dele fiz, e depois cursei o Magistério. Voltei para casa e lecionei na comunidade por sete anos. Depois ocorreu a Nucleação das Escolas, já era casada, tinha uma filha, grávida de outro e resolvi parar de dar aulas. Até porque por ter visão política diferente do prefeito na época eles não contratavam. Então ficamos fora do processo”, relata. Voltou-se então para a agricultura, pois mesmo quando lecionava mantinha gado de leite, plantação, ajudava o marido na agricultura. Iniciaram atividade com suínos. Mas tinha o sonho de trabalhar com mudas. “Sempre gostei mais de trabalhar com terra do que com animais”, conta.
Deumira comenta que houve um momento que seu marido não queria mais ficar na propriedade, teve problema de depressão, queria vender a propriedade e morar na cidade. “Mas eu nunca aceitei morar na cidade. Aí surgiu a oportunidade dele trabalhar com um caminhão, fazer serviços terceirizados e ele foi. Eu continuei na agricultura”, conta.
Antes disso, quando ela começou a planejar ter algo dela, trabalhar com salada ou algo assim, engravidou do terceiro filho. “Não foi uma gravidez planejada e nasceu o Davi que é Dowm, que foi uma surpresa. Foi um desafio. Aceitamos, mas sabíamos que teríamos um grande trabalho. Não tinha sequer carteira de motorista, então a primeira coisa que fiz foi a carteira para poder fazer acompanhamento”, conta Deumira. Até que o Davi tinha três ou quatro anos ela ficou praticamente apenas em função do filho. “Quando ele cresceu, começou ir na aula, investi na atividade de mudas. Foram muitas dificuldades. A primeira financeira. Quando a mulher quer fazer uma atividade parece que é mais difícil. Tive que economizar da venda do leite, ir juntando, para instalar o viveiro. Foi um processo bem lento”, ressalta.
Mais desafios
 No dia primeiro de maio de 2014 Deumira começou semear as primeiras sementes para o viveiro. “Em agosto quando comecei vender na casa colonial, já tinha alguns fregueses, a minha filha sofreu um acidente grave, teve traumatismo craniano, ficou 26 dias no hospital e eu tive que abandonar de novo a minha atividade, porque o meu marido não podia. O que tinha plantado morreu. Só comecei a semear novamente em janeiro de 2015”, conta. Após a filha estar recuperada e ela reiniciar as atividades, ocorreram dois vendavais que destruíram o viveiro.
Mas Deumira nunca desistiu e nunca perdeu a vontade de recomeçar. “Com todas essas dificuldades aprendi muito. Eu me desafiei mais pelas circunstancias. Todas as dificuldades que a gente passa se fortalece, vai rompendo algumas barreiras que a gente tem, alguns tabus. Quando eu era jovem só os meninos podiam fazer carteira. O carro era para homem”, enfatiza. Ela vem de uma família de 7 irmãos, sendo dois homens e cinco mulheres. “E de uma família assim que a mãe só teve o dinheirinho dela depois que se aposentou. Senão até ali tudo que queria tinha que pedir para o pai. Tenho umas coisas assim bem presentes de como o machismo dominava lá. De que quando a mãe precisava de uma roupa, desde roupa de cama, toalha, ela tinha que pedir dinheiro para o pai. E o pai ainda dizia que não tinha dinheiro. A mãe nunca teve uma conta bancária, o pai financiava, mas não precisava das assinaturas das mulheres como hoje precisa. Por causa disso temos uns grilos, barreiras, a gente tem medo. Eu tenho medos. Como eu tinha medo de dirigir, só comecei quando me obriguei. Por um lado, fico feliz de ter aparecido essas dificuldades porque me desafiei. É nas dificuldades que nos desafiamos”, relata Deumira.
Ela comenta que nunca foi de aceitar muito o que o pai dela colocava. “Ele ditava regras e eu sempre fui de desafiar, cutucar, uma personalidade diferente. Diz que toda família tem a ovelha negra e eu acho que eu era a ovelha negra né”, destaca entre risos. “Me sentia bem de desafiar, não ter o mesmo partido político dele. Quando decidi fazer o segundo grau, não tinha transporte escolar, então fui trabalhar de doméstica na cidade para poder estudar e o meu pai disse: tu pode ir, mas se não der certo, não pense que tu vai ganhar que nem as outras. E as outras só ganharam um enxoval, porque quem tinha vez de ganhar a terra era só os homens”, lembra. “Sempre tive que me virar. Trabalhava de empregada, ganhava meu dinheirinho, tive que comprar meu material, livros. Meu pai me ajudou um pouco na 3ª série quando tive estágio e ele me ajudou pagar um mês de pensão, para estudo é o que tive de ajuda. Tinha vontade de fazer faculdade, mas era difícil na época”, conta.
O papel da mulher
Deumira entende que as mulheres lutam, se desafiam para chegar à igualdade com os homens, mas que ainda falta muito. “Encontramos dificuldades em todos os lugares”, frisa. Ela conta que depois que os filhos cresceram, começou a participar de cursos, e, por isso, às vezes foi mal interpretada. “Acham que se a mulher sai de casa não é que ela vai em luta de uma vida melhor. Os homens podem trabalhar fora de casa tranquilamente. Então falta muito para chegar a igualdade”, lamenta.
Ela destaca a importância da luta para alcançar a igualdade, mas lembra as dificuldades enfrentadas pelas mulheres, inclusive dentro de casa. Segundo ela, para a mulher agricultora é ainda mais difícil. Como desafio para a mulher rural é, segundo Deumira, justamente a autonomia. “As moças querem liberdade, vida própria. Ainda tem resquício do sistema patriarcal onde o homem manda. Quase sempre as mulheres ficam do lado do marido, a grande maioria, os homens assumem a atividade e a mulher ajuda. Ela não é protagonista da história dela, deixa que os homens vão conduzindo a história”, enfatiza.
Deumira é conselheira da Cresol. “Quando fui convidada tinha o Davi com 6 meses, amamentando, nenê especial e não tinha outra mulher para indicar. Para ver como as mulheres estão paradas”, observou. Para ela, a mulher precisa perder o medo para ocupar mais espaços de protagonismo. “Depois que as mulheres começam a se envolver com as coisas, não querem mais parar. Rompem a barreira do medo”, diz.
Saúde da Mulher
Para Deumira a mulher tem saúde quando tem tempo para ela mesma, faz atividades diferentes, dança, teatro ou futebol. “Isso ajuda a descarregar as energias negativas. É saúde ela se sentir valorizada na sociedade, em casa. Algumas doenças são adquiridas só de angústia de ficar em casa, de não se desafiar. Poder se alimentar bem, poder ter uma vida de liberdade de algumas coisas”, reforça.
 

Assessoria de Imprensa da Cresol Central SC/RS