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Publicado em: 14/10/2016

Mulheres de Luta 2

Hoje vamos conhecer a história da Lucila, que juntamente com o marido e duas filhas, toca a propriedade, de forma igualitária. Todos decidem juntos o que e como fazer. Homem, mulher e filhas tem voz e vez na administração.

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Hoje vamos conhecer a história da Lucila, que juntamente com o marido e duas filhas, toca a propriedade, de forma igualitária. Todos decidem juntos o que e como fazer. Homem, mulher e filhas tem voz e vez na administração. Essa é mais uma história das nossas mulheres guerreiras, do projeto Mulheres da Luta da Cresol Central SC/RS.

Lucila Urio – Cresol Getúlio Vargas

A agricultora Lucila Urio, associada da Cresol Getúlio Vargas, vem de uma família de nove irmãos, sendo sete mulheres. “Trabalhávamos desde cedo. Meus pais não tinham muito poder aquisitivo, então trabalhávamos desde nova na roça. Chegava da escola e ia para a lavoura ajudar o pai. O que podíamos fazer, fazíamos”, conta. “Estudei até a quarta série, pois a mãe tinha problema de saúde, teve que fazer várias cirurgias e eu tive que deixar do colégio para atender meus irmãos em casa. Quando minha mãe fez a cirurgia minha irmã mais nova tinha nove meses e eu com 11 anos tomei conta da casa. Minha avó veio de companhia, mas quem tomou conta da casa, vaca de leite, fomos nós. Eu com 11 anos me achava adulta, imagina! Fazia tudo: pão, lavava roupa a mão, pois naquela época não tinha máquina, era tudo no braço e se virava”, relembra Lucila.
Lucila teve quatro filhos. O primeiro faleceu, depois nasceram três meninas. A mais velha é casada e mora na cidade, tinha uma lojinha de roupa, mas vendeu e trabalha de pedreira com o marido. “As outras duas estão trabalhando conosco na roça. Na roça nós quatro fizemos de tudo: vamos na lavoura, ajudamos em casa, na lida com as vacas, na semeadeira, no que precisa. Homem e mulheres é a mesma coisa. Dizem que as meninas não substituem os homens, mas elas fazem mais que um homem”, enfatiza Lucila. “Uma das minhas filhas faz frete. Nós colhemos e ela leva para as empresas. Alguns homens dizem: ‘mas olha ela, as mulheres querem ser mais que os homens’, mas ela vai na graneleira, faz notas, cuida, e para ir descarregar a outra menina vai junto, porque lá é só homem e aí vão as duas. Ela conta que às vezes eles fazem piadinhas, mas ela se vira e faz tudo”, relata a mãe com orgulho das filhas que também são guerreiras.
Lucila trabalha com atividade leiteira há quase 40 anos. “Gosto de morar e trabalhar no interior, não é que não aprendemos coisas de quem mora na cidade, mas eu não sei se nos acostumaríamos. Aqui fizemos qualquer coisa: pegamos trator, carro, motosserra e serramos lenha, além dos afazeres da casa, é horta, fruta, miudeza, as galinhas, o que tiver que fazer é tudo a gente que está nessa lida direto. Temos amor por isso”, enfatiza. “Chega de noite às vezes estamos cansados, tem gente que diz ‘não sei como vocês aguentam’, mas fazer o que, a gente faz, é nosso pique, então não estranhamos”, acrescenta Lucila. “Ainda há alguns anos íamos jogar bola, no time feminino, levávamos os prêmios para casa, chegávamos às 10h ou 11h da noite e ‘íamos tirar leite’. Vínhamos cansadas, com as pernas doendo às vezes, mas nos divertíamos”, conta.
Na propriedade, todas as decisões, desde o que comprar até a administração, são tomadas por todos os membros da família. “Não fizemos nada sem que os quatro estejam sabendo. Muitos maridos fazem e as mulheres ficam de fora, mas aqui não. É junto. Todos sabem das contas, o que tem para pagar, todos sabem a mesma coisa, tanto o marido, a mulher e as filhas. Não sei se todas as famílias fazem isso, eu penso que não, porque tem famílias que o marido faz as coisas e a mulher nem fica sabendo de nada. Não sei se estamos certos ou errados, mas para nós deu certo”, salienta Lucila.
Para a agricultora, as mulheres devem ter o mesmo direito que o homem, ter vez e voz. “As pessoas devem entender que as mulheres têm capacidade de fazer o que um homem faz. Nem todas pensam igual, mas todas podem. Eu não sofri preconceito, mas ainda existe porque há mulheres que não tem a vez de falar. As mulheres têm que lutar para serem respeitadas na sociedade. Às vezes elas são discriminadas, uns aceitam e outros não. Às vezes elas tem medo e não sabem que podem”, frisa Lucila.
Desafio na agricultura
    Segundo Lucila, o maior desafio na agricultura hoje é a necessidade do apoio das políticas públicas. “Quando não tem o pessoal desanima e vai para cidade. Às vezes não tem apoio, o preço do nosso trabalho é desvalorizado, às vezes precisamos de uma máquina da Prefeitura e eles não te ajudam, é muita burocracia, amanhã ou depois vai sobrar só os velhos, porque são poucos os que continuam aqui. Desanimam né, eles acham que trabalhar e ganhar um salário para eles chega, e a gente não tem feriado, sábado ou domingo, é direto. As gurias também lutam e não vão sair. Mas se você precisar de mão de obra, não arruma ninguém”, lamenta a agricultora.
 

Assessoria de Imprensa da Cresol Central SC/RS